Somos realmente Civilizados?

Se violência contra crianças assusta, a violência sexual horroriza. Chego a duvidar se é possível considerar o ser humano superior aos animais, como se apregoa. Volto ao penoso tema, somente porque se trata de situação bem mais frequente do que se pensa, e que muitas vezes é perpetrada não por estranhos, mas por pessoas da confiança da criança e da família.
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Sumário

Somos realmente Civilizados?

Se violência contra crianças assusta, a violência sexual horroriza. Chego a duvidar se é possível considerar o ser humano superior aos animais, como se apregoa. Volto ao penoso tema, somente porque se trata de situação bem mais frequente do que se pensa, e que muitas vezes é perpetrada não por estranhos, mas por pessoas da confiança da criança e da família. E é justamente este fato – a confiança que a família tem no agressor – que torna possível a continuidade do delito por anos a fio, sem que a vítima revele o que está ocorrendo – única forma de se libertar desse sofrimento.

Quando a agressão é praticada contra uma criança de nove anos ou mais, a percepção de que algo está errado se dá mais rapidamente do que com as mais novinhas, que não sabem distinguir o carinho sincero do delito sexual, que se apresenta a ela disfarçado de afeto. Por isso muitos molestadores ficam impunes, e, às vezes, para sempre.

Mesmo quando começam a desconfiar de que alguma coisa está errada, ainda assim, muitas vítimas não reagem – por várias razões. Uma delas é o receio de envolver outros membros da família: afinal, se o molestador for um tio querido por todos, é natural que a criança tenha dúvidas sobre denunciá-lo. Outra razão costuma ser a percepção de que não lhe darão crédito, especialmente se o agressor faz parte ou tem boas relações com a família. Pode parecer absurdo para quem é sexualmente saudável, mas a ocorrência com tios, padrinhos e padrastos é alta se comparada às que partem de estranhos.

Outra razão para essa aparente aceitação da violência é que, em geral, ela surge disfarçada, e assim a criança sente-se em dúvida sobre o que está acontecendo. As formas mais usuais de abuso são: tocar seios e nádegas como se fosse sem querer; dar palmadinhas no bumbum, do jeito que muitos pais fazem com os filhos a título de brincadeira; forçar abraços, que acabam sendo mais do que isso; mandar a criança procurar “uma surpresa” no bolso da calça; chamá-la para sentar no colo, a pretexto de contar um segredo ou história.

E outras armadilhas do gênero. Intuitivamente, a criança sente que há algo errado, embora não saiba precisar o que. Também é frequente se sentirem culpadas, especialmente quando os carinhos lhe dão prazer, o que não é difícil de ocorrer – afinal as áreas que o agressor manipula quase sempre são zonas erógenas. Esses sentimentos são extremamente angustiantes, como se pode imaginar. É natural que deixem sequelas, que podem ir de dificuldades de relacionamento afetivo até graves inibições sexuais.

Por tudo isso, é fundamental alertar os pais para que evitem trazer para o convívio familiar pessoas que conheçam pouco, especialmente quando os filhos são pequenos. Sejam namorados, amigos, empregados – não importa: faz parte dos deveres dos pais prover a segurança dos filhos. Portanto é preciso conhecer minimamente quem vai conviver com nossos filhos, antes de colocá-los dentro de nossas casas. A mudança de parceiros, por exemplo, é bem comum hoje, dada a volubilidade com que os relacionamentos começam e terminam. Então, vivam suas vidas, sejam felizes, mas não esqueçam que postergar convívio pode ser uma forma simples e essencial de proteção.

Foto de Tania Zagury

Tania Zagury

Filósofa, Professora da UFRJ, Escritora com 39 livros publicados, incluindo “Limites sem Trauma”. Conferencista com mais de 6100 palestras e cursos. Cadeira 185 da ALALS.

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